Quem são os Motoristas do Uber?

Odiados pelos taxistas e alvo de hostilidades, os motoristas adeptos ao sistema Uber são pessoas comuns e com histórias muito interessantes. Nos últimos trinta dias, enquanto me deslocava de um lado para outro, resolvi conversar e conhecer um pouco mais quem são eles e elas. A pergunta básica que usei para começar a conversa foi: você é Uber 100% ou não?  suficiente para que cada um começasse a contar o que faziam, seus objetivos e angustias.

O Sr. Vicente, por exemplo, trabalhou por mais de trinta anos em um importante jornal na área de Marketing. Estava aposentado já há dois anos e sentindo-se um pouco deprimido, passava os dias de pijama assistindo TV. Seu neto Leonardo estuda engenharia e nas horas vagas pilota o seu carro pelas ruas de São Paulo como um dos Ubers. Foi ele quem incentivou o avô a sair da zona de conforto e começar a transportar pessoas em seu carro econômico. Ele começa cedo, as seis da manhã  já está a postos e atento ao seu celular, onde chegam os pedidos de clientes Uber. Conta que tem dado sorte e pego algumas corridas mais longas até o aeroporto de Guarulhos o que lhe rende um valor melhor. Ele não tem trabalhado pelo dinheiro em si, mas a renda extra acaba ajudando a pagar suas despesas como condomínio e IPTU.

Antonio, um motorista de linhas regulares de ônibus, é um Uber driver que usa seus dias de folga e férias para completar sua renda. Conhece em detalhes as ruas de Goiânia e fala com propriedade sobre a cidade, a condição econômica do país e até sobre cultos religiosos que conduz junto à comunidades carentes e dependentes de droga na região. Ele é o tipo de cara simples e simpático. Bom de conversa, agradável. Diz que ainda tem medo de pegar passageiros onde os taxistas estão parados. Foi o meu caso, bem na frente de um hotel. Ele não teve coragem de descer do carro, eu mesmo me virei colocando as malas no porta malas. Nunca viajou de avião mas garante que um dia irá fazê-lo. Me pergunta se dentro do avião faz frio, está curioso. No aeroporto, mais relaxado, ele faz questão de colocar as malas no carrinho. Deseja-me bom voo e sua fé pede para que Deus me acompanhe.

André é cartunista vindo de Minas Gerais e recém instalado em São Paulo. Mora sozinho com o filho de 16 anos e dirige nas horas vagas para arrecadar dinheiro extra que o ajude no pagamento da mensalidade da faculdade. Um pouco tímido me conta sobre a sua paixão pelo desenho e artes. Falo sobre eventos e ele me dá algumas dicas sobre como usar os serviços de cartunistas. Gostei do papo. Ele totalmente abstrato esquece-se de seguir o GPS. Nada que não pudesse ser corrigido. Trocamos cartão. Provavelmente ele fará algo. Uma capa de um livro. Uma caricatura. Sei lá. Gente boa.

Em outra recente viagem encontrei Roberto – um ex taxista profissional. Ele me conta que trabalha mais horas hoje para arrecadar uma quantia similar ao que faturava quando trabalhava para uma cooperativa de táxis. Ele garante que está valendo o sacrifício para ter mais liberdade. Ele fala como um empreendedor à frente de um novo negócio. Diz que tem mais tempo, que consegue conviver mais com filha pequena. Quando está disposto chega dirigir quase dez horas. Diz gostar do trânsito e de conversar com os passageiros, mas se o cliente não parece aberto ele sabe se colocar na posição de “calado”.

Em situação bem diferente, Aroldo é supervisor de vendas de uma empresa de componentes eletrônicos. É responsável por abastecer o varejo de sites de comércio virtual. Com a crise e queda nas vendas, ele usa o tempo extra dirigindo para a Uber como uma saída para equilibrar o seu orçamento. Reclama que sua última grande venda foi na black friday, ano passado. Lamenta-se que os negócios estejam parados e que a empresa em que trabalha está demitindo.

Os motoristas Uber não limitam-se aos homens. Amélia, uma senhora de seus sessenta e poucos anos, aposentada, trabalha pelo menos quatro horas por dia. O dinheiro é um complemento obrigatório de renda. Junta-se a uma aposentadoria irrisória – segundo ela. O marido ainda trabalha, mas transformar o carro da família em um Uber acabou sendo a forma que ela encontrou para complementar a renda familiar.

Já Adriano, jovem de seus trinta anos, está desempregado há alguns meses. Era técnico em programação Cobol. Fala-me com entusiasmo sobre o sistema e suas últimas experiências. Está procurando emprego mas reclama que as vagas e entrevistas andam escassas. Diz que ser um Uber tem ajudado, não faltam clientes. Mas para conseguir o mesmo rendimento que obtinha sendo programador precisa trabalhar pelo menos quatorze horas por dia.

Os nomes aqui mencionados são fictícios, mas de repente em sua próxima viagem você pode cruzar com um desses pioneiros. Afinal daqui há alguns anos eles poderão contar como revolucionaram a forma de transportar pessoas no Brasil.

Esqueci de mencionar: todos eles, sem excessão, dirigiram direitinho.

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