Qualidade ainda importa? (parte 1)

Hoje recebo aqui em nosso blog um convidado especial. Dr. James Lamprecht é um amigo e na década de oitenta foi considerado nos Estados Unidos como o novo guru da Qualidade. Hoje mora nos Estados Unidos, na região da Califórnia e já visitou o Brasil algumas vezes. Convidei-o para uma entrevista com algumas perguntas provocativas. Vamos a primeira parde da entrevista.

Pergunto ao Dr. Lamprecht: você acredita que o conceito de Qualidade e Melhoria Contínua está ultrapassado e já não é mas debatido em grandes empresas?

Existiu um tempo durante os anos 50 que as ideias de Qualidade e Melhoia Contínua foram refutadas pelas empresas americanas. Vance Packard em seu livro The Waste Makers apresenta várias razões para isso. Uma delas é que qualidade e controles estavam aliados com aumento de custos e perda de flexibilidade.

De fato, é interessante observar que a busca por uma qualidade contínua tem seu nascimento em meados dos anos 1950 com Dr. Ishikawa no Japão e com a evolução dos círculos da qualidade (Dr. Juran). Alguns destes conceitos somente foram exportados para a América no inicio dos anos 1970.

Eu não poderia dizer que estes temas estão hoje ultrapassados, entretanto esta questão requer alguma reflexão. Quando comparamos, por exemplo, a atual qualidade de fabricação de veículos com quarenta a cinquenta anos atrás, eu sou inclinado a dizer que ela melhorou. Quero dizer houve ganhos em itens de conforto, segurança, performance dos motores, pneus, e muitos “gadgets” foram adicionados – alguns até pioraram a segurança em função da distração do motorista.

Se olharmos para a telefonia celular, como exemplo, não existe dúvida que eles são em geral bem construídos e seus componentes bem confiáveis, mas o que você acha en relação aos softwares? No meu caso uso Android e frequentemente eu sou lembrado que devo atualizar a versão do sistema. O mesmo acontece com softwares como Adobe ou mecanismos do Google. Muitas destas atualizações tentam dirimir problemas relacionados com, por exemplo, segurança. Eu poderia chamar isto de melhoria contínua ou apenas considererar que foram ajustes para corrigir falhas de projeto? Não posso garantir que a indústria da tecnologia possua hoje um bom controle de qualidade quando tantas atualizações são feitas para a correção de problemas.

Portanto, as empresas estão procurando sempre melhorar mas nem sempre com o objetivo de atender necessidades dos clientes. Muitas melhorias hoje são feitas para que haja avanços tecnológicos. Muitas novas drogas na indústria farmacêutica nascem através da alocação de moléculas provenientes de patentes anteriores. Nesta área sofrem os profissionais que atuam nas áreas da qualidade. Esta é uma briga eterna. Eles obviamente defendem a sua importância ao dizer que sem eles provavelmente não haveria garantias de qualidade. Na contra-mão os profissionais de manufatura e engenharia podem afirmar que tudo seria mais fluido se as coisas fossem feitas de modo mais livre.

Se compararmos um profissional de hoje da área da qualidade com alguns dos anos 1960 ou 1970, eu acho que pouco mudou. Nada foi alterado drásticamente. Algumas técnica como Manufatura Enxuta e Six Sigma foram introduzidas e há dúvidas se elas já não existiam naqueles tempos atrás.

Os produtos de hoje são melhores que os de cinquenta anos atrás?

Eu acho que tivemos avanços tecnologicos que aumentaram a confiabilidade dos processos, e em muitos casos, tornaram os produtos mais baratos. Mas esta afirmação pode logo ser questionada. Eu mesmo possuo na minha garagem um rádio estéreo Telefunken, comprado pelo meu pai na década de sessenta funcionado perfeitamente bem, mesmo depois de ter suportado diversas mudanças nos ultimos anos. Tenho que lembrar que a indústria alemã naquela época não considerava a questão de obsolecência dos produtos. Podemos dizer o mesmo de nosssos produtos nos dias de hoje? Em alguns casos a resposta deveria ser sim, mas na maioria dos casos a resposta seria não. Mas mesmo se os produtos fossem muito resistentes jamais funcionariam se os seus softwares não fossem atualizados constantemente.

Continua no próximo post.

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